Rua Paraguaçu, 404 | Perdizes | 05006-011

(apenas atelier, indisponível para atendimento)

© 2023 by Little Ray. Proudly created with Wix.com

  • Estela

Antes de mãe, sou mulher.


Você, antes de engravidar, imaginava que sua vida seria um mar de rosas. Aquela imagem de mulher imaculada, de ser divino, mãe boa e todo esse bla bla bla que a sociedade insiste em manter como arquétipo. [ rosto brilhante e angelical ]


Você, ao se tornar mãe, se viu pressionada no dever de desempenhar todas as tarefas da forma mais perfeita possível, pois havia sempre alguém ao lado julgando suas atitudes e julgando o que é ser uma mãe de verdade. [ risos aflitivos ]


Você, ao começar a se conhecer como mãe, começa a reconhecer angústias assombrosas que jamais imaginava sentir. Luta, briga, se opõe a si mesma, para se adequar ao que o outro obriga que você seja. "Porque, como assim todo mundo está errado e só eu certa? Que pensamentos são esses? Sua ingrata. Para e aceita que agora você é mãe e uma mãe BOA. Aceita que foi uma escolha ser mãe, e agora a responsabilidade é sua!". [ auto abuso ]


Você, ao se desenvolver como mãe, em meio a esse terror psicológico, as exaustivas tarefas diárias não param de aparecer, cada vez em maior quantidade e complexidade. [descabelada ]


Você, ao se entender como mãe, se cobra enquanto começa a busca da mulher que está perdida. Afinal, mãe que é mãe não pode querer ser mulher. Tem que ser uma MÃE PERFEITA. [ descabelada...e sozinha ]


Você, ao finalmente aceitar ser mãe, começa a deixar de ter interesses em si mesma. Continua descabelada, com a vida social bagunçada e parecendo um filme de terror. As tarefas diárias são exaustivas, mas você dá conta. São repetitivas e chatas, mas é sua obrigação. [ rosto apagado ]


Eu poderia deixar essa história com esse fim, porque ainda, a maioria das vezes, é o que acontece.

A mulher se apaga para vida porque se tornou mãe. E só aceitam o modelo de mãe que a sociedade impõe: sem falhas, perfeita, recatada, equilibrada, disciplinada, silenciada….e branca. Se ela é mãe, negra e pobre então, sem chances. Isso é cruel e sádico. É perverso.


Eu, mãe de um menino, 6 anos depois ainda reflito e aprendo todo santo dia sobre as normas que me foram impostas, sobre o "ser mãe e divina maravilhosa", sobre poder também ser mulher, sobre querer ser aceita, eu grito meus limites como ser humana, sobre as dores que sinto. Agora que evoluí alguns pontos, me sinto um pouquinho mais mulher e uma mãe menos perfeita. Ainda falta muito. Mas UFA, que alívio!


Em tempos de feminismo, espero essa mesma sororidade que cresce, para evoluirmos mais a fundo essas questões. A gente precisa falar sobre redes, sobre força, sobre desconstrução, sobre amor, sobre erros, sobre VULNERABILIDADE. Sobre o que é ser mãe de verdade, sobre ser mulher, sobre se amar.

19 visualizações